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QUANDO EU DEIXEI DE SER BRANCO

Foto do escritor: Sam Fontes
Sam Fontes
2 de out.
8 min de leitura

Atualizado: 3 de out.


Eu ainda não estava acreditando que tinha conseguido 9 mil dólares em bolsas e, de alguma forma, mais 2 mil com o meu próprio trabalho para ir a China!


Mas lá estava eu, no aeroporto de Salt Lake City, com uma baita de uma mala grande, uma menorzinha e uma mochila.


Eu tinha chegado cedo demais e era o primeiro a aparecer. Depois de quase 1 hora, um por um, cada estudante foi chegando, carregando praticamente a mesma quantidade de bagagem que eu.


De repente, lá estavam eles: o professor, a esposa, os cinco filhos, 3 meninos, 2 meninas, todos entre 6 e 14 anos, e mais uma surpresa, a avó.


A sogra do professor tinha entrado na nossa viagem de última hora. Spoiler: ela acabou sendo uma das pessoas mais divertidas.


Infelizmente, não deu para aproveitar muito a companhia dela, porque ela ficava mais com Thomas, o estudante mais novo do grupo e, convenientemente, seu neto. Thomas era legal, gente boa, da galera, se dava bem com todo mundo, mas toda vez que tentava socializar eu sentia alguma coisa muito estranha vindo dele.


Com certeza, ele era gay, enrustido como eu, mas, diferente de mim, tentando esconder, agindo de forma super hétero e dizendo que tinha uma namorada. Ele simplesmente agia de um jeito estranho e meio distante de tudo.


Meio que como se ele fosse uma loira burra, desses personagens clichês de filme, mas versão menino de 18 anos.


Mas enfim, finalmente estávamos todos lá no saguão do aeroporto, prontos para fazer o check-in e embarcar no que seria o voo mais longo e cansativo da minha vida.


Quinze horas dentro de um avião podem deixar qualquer pessoa meio maluca ou, no meu caso, fazer eu começar a ficar consciente de tudo e todos daquele grupo, a ponto de me irritar com cada coisa que eles estavam fazendo.


Mal sabia eu que aquela irritação era só o começo do que estava prestes a ser o maior choque cultural da minha vida.


E eu não estou falando de choque cultural de estar em outro continente e em outra cultura completamente diferente da minha, mas de estar com americanos jovens, brancos, ricos, mórmons.


Aquilo, por si só, foi uma experiência que, por mais que eu tente, nunca vou esquecer.


“Ok, todo mundo está aqui. Eu estou com os bilhetes. Vou entregar para cada um, mas antes precisamos tirar nossa primeira foto oficial!”, disse o Professor Johnson.


As vinte e poucas pessoas foram se ajeitando na foto para que todo mundo pudesse caber, e eu, como um dos mais altos, naturalmente fui para o fundo, quando ouvi:


“Sam, você pode ir para a frente, por favor?”


Do nada, um pedido que eu não esperava. Não entendi muito bem por que o Professor J estava me pedindo isso, mas fui para a frente.



Voamos para Hong Kong e depois finalmente para Pequim.


“Gente, hoje vai ser o dia mais difícil e talvez o mais ocupado da viagem! Porque vamos tentar ficar acordados o dia inteiro para nos acostumarmos com o novo fuso horário. Nós saímos dos EUA no dia 22 de maio e hoje já é dia 24! Quão louco é isso!?”


Disse o Professor Johnson com um sorriso divertido, mas aparentemente forçado no rosto.


“Dia 24 já?”, falei baixinho para Ingrid, que estava ao meu lado.


Ela disse que sim. Saímos tarde no dia 22, voamos por 15 horas e atravessamos 16 fusos horários.


“Então é meu aniversário”, eu disse.


Ela olhou para mim com bem menos empolgação do que eu esperava e me deu parabéns, apenas tocando nos meus ombros.


Um gesto não muito esperado por mim, que vinha de uma cultura calorosa, que, se escutasse que era o aniversário de alguém, pularia para dar um grande abraço.


Mas ali eu comecei a perceber que estava viajando com pessoas que tinham sido criadas, educadas e agiam de uma maneira muito diferente da minha.


“É aniversário do Sam, gente!”, ela disse, me pegando de surpresa.


Ali talvez eu esperasse receber alguns abraços, mas, de novo, nada. Apenas alguns tapinhas no ombro mais uma vez.


Nossa van chegou e, em vez de irmos para um hotel, fomos direto para o que eu diria que era a atração número um da viagem, logo de cara.


A Muralha da China!


O Professor J sabia o que estava fazendo.

A atração mais emocionante da viagem, no dia em que estávamos mais cansados.


A empolgação estava tão alta que, por pelo menos 6 horas, esquecemos que estávamos exaustos.


Subir e descer aquelas escadas íngremes e cheias de pedras não era fácil e, para deixar a situação difícil mais “engraçada”, Nate e Dallin, dois dos meninos bonitos, riquinhos e com cara de populares, começaram a zoar todos os outros meninos por causa dos círculos de suor bem na região da bunda.


Apesar de todo mundo estar rindo, aquele tipo de humor era muito difícil pra eu engolir. Eu odeio quando outros constroem alguém só para fazer graça. Aquilo me lembrava demais dos bullies do ensino médio que faziam a mesma coisa comigo.


Quando finalmente descemos da muralha, prontos para comer alguma coisa em um restaurante chinês local, outra experiência inesquecível que nunca esqueceremos, o Professor J pediu outra foto do grupo.


E dessa vez, ele colocou os braços nos meus ombros e meio que me guiou para a frente com ele.


Eu tinha aquelas marcas estranhas de suor pela camisa inteira e, claro, também no short, bem entre as pernas, e não queria ficar na frente.


Tirei o braço dele e falei que ia para o fundo. Ele me olhou com uma expressão que eu não consegui entender, mas não falei nada.


Tinha alguma coisa estranha acontecendo.


Depois do almoço e de um passeio pela cidade, chegamos ao hotel e, antes de irmos para os quartos, o Professor J explicou que, em cada hotel, seríamos colocados em quartos com uma pessoa diferente.


Isso permitiria que conhecêssemos melhor uns aos outros e não enjoássemos tão rápido da companhia uns dos outros.


Ouvir aquilo foi um pesadelo. Eu não conseguia imaginar ter que dividir quarto com qualquer outro garoto que não fosse Austin. Ele era o único com quem eu me sentia confortável e com quem eu não precisava fingir tanto que era hétero.


Não porque ele fosse gay ou qualquer coisa assim, mas porque Austin estava no mundinho dele desde o primeiro encontro que tivemos sobre essa viagem.


Ele tinha feito sua missão mórmon em um país asiático e, desde então, tinha deixado muito claro que pretendia usar aquela viagem para encontrar sua namorada asiática e futura esposa.


Logo de cara, colocou o plano em prática. No primeiro voo, pediu o número de telefone da comissária de bordo, recebendo uma rejeição bem clara dela.


Mas ele não ligou nem um pouco. Ele estava na missão de quantidade, não de qualidade. Continuou dando em cima das meninas no aeroporto, na sala VIP, nas filas, nos restaurantes e na rua.


Ele nunca foi invasivo ou assediou ninguém, mas era quase estranho demais ficar perto dele, haha. E eu adorava isso. Toda a atenção estava nas ações dele, e não nas minhas.


Antes de todos subirmos para os quartos, o Professor J quis tirar outra foto. E, antes que ele pudesse tentar me colocar na frente de novo, eu simplesmente fui sozinho.


Eu não queria que ele tentasse de novo e criasse outra situação estranha.


Depois que a foto foi tirada, ele veio até mim e disse:


“Obrigado. É muito importante que você esteja visível e feliz nas nossas fotos.”


Eu não entendi porra nenhuma do que ele queria dizer com aquilo. Mas, se ele estava tentando soar gentil e educado, errou completamente o tom, porque aquilo soou sombrio e perturbador.


Naquela mesma noite, surpreendentemente, recebi uma mensagem da Alyssa, a garota que tinha me apresentado ao programa de intercâmbio.


Ela perguntou se estava tudo bem e disse que, se eu tivesse qualquer dúvida, deveria sempre perguntar. E eu perguntei.





Disse que estava tudo indo bem, que a Muralha da China tinha sido uma ótima escolha para o primeiro dia e provavelmente uma das melhores experiências para o meu aniversário. E então, entrando no assunto aos poucos, perguntei por que o Professor Johnson queria que eu ficasse na frente em todas as fotos.


E, poucos segundos depois, recebi um áudio. Nenhuma mensagem de texto, nenhum “feliz aniversário”. Mas um longo áudio de 5 minutos.


Um “oi” meio sem jeito no começo, e ela foi direto ao ponto.


“Bom, Sam, eu achei que você tinha percebido isso desde o começo, quando eu falei com você. Mas deixa eu deixar isso claro para você. Talvez você tenha percebido que todos os seus colegas aí são americanos brancos. Desde que o programa começou, e em muitos programas de intercâmbio da BYU, a maioria, senão todos, dos estudantes que vão são jovens brancos e ricos.


No ano passado, eu estava fazendo uma das matérias do Professor Johnson e ele perguntou se eu tinha interesse em ir. Eu dei a mesma resposta que você: eu sou só uma estudante pobre. E então ele me ajudou a conseguir todas as bolsas, assim como eu fiz por você. Eu fui a primeira pessoa de cor a participar em anos.


Depois da viagem, o Professor J disse que isso foi extremamente útil para a universidade manter o programa e continuar financiando o programa. A BYU tem tentado mostrar mais diversidade e, se os estudantes estão viajando pelo mundo levando o nome da universidade, eles valorizam a diversidade nos grupos.


Ela fez uma pausa. Quatro segundos de silêncio no áudio pareceram uma eternidade. E então ela disse:


“Como você acha que o Professor J paga por ele, pela esposa e pelos cinco filhos? É tudo financiado.


Nós somos a última esperança para que isso continue e para que ele continue levando essa família pelo mundo sem pagar.


Tudo porque somos não brancos.”


Ela terminou o áudio com essas palavras. Nunca mais falou nada sobre isso pelo resto da minha viagem.


Eu entendi o meu lugar ali.


No começo, eu achava que estava usando o dinheiro da universidade, os 7 mil para o meu prazer e para explorar o mundo, quando, na verdade, eles estavam lucrando muito mais simplesmente com a minha presença ali.


E, mais uma vez, por mais branco que eu achasse que fosse, eu fiquei moreno. De novo.

A primeira vez foi quando, aos 16 anos, no meu primeiro dia em Utah como intercambista, a primeira frase que ouvi de um americano foi:


“Oi, Sam, prazer em te conhecer. Uau, olha só para você, tão bonito com essa sua pele dourada, bronzeada, morena.”


Mesmo que no Brasil eu seja branco, esteja registrado na minha certidão de nascimento como branco, seja visto como branco e tratado como branco, nos Estados Unidos eu era uma pessoa bronzeada, dourada, morena. Não moreno no espectro da pele negra, mas bem dentro do espectro latino.


E eu digo tudo isso com a maior tranquilidade. Eu gosto do meu tom de pele. Infelizmente, por ser um homem privilegiado no Brasil, nunca precisei pensar muito sobre isso até esse privilégio viajar comigo para os Estados Unidos.


Não apenas porque eu precisava estar centralizado e visível em todas as fotos do grupo, mas também pelo oposto, enquanto andava pelas ruas com o grupo e era a pessoa completamente invisível para os chineses.


Em qualquer lugar onde colocávamos os pés, os chineses tiravam os celulares do bolso e, sem pedir permissão, tiravam fotos dos estudantes brancos.


Alguns até eram abordados como celebridades para tirar fotos juntos. Principalmente os que tinham a pele extremamente clara, como a Mia, e os loiros de olhos azuis, como os irmãos Carter.



E, quanto a mim, sem dizer uma palavra, os chineses me entregavam os celulares deles, sinalizando para que eu tirasse as fotos.


E eu digo tudo isso sabendo que continuo sendo extremamente privilegiado. Uma pessoa branca, bronzeada. Não me entenda mal. Eu sei como eu pareço.




Crencendo com tanto privilégio, realmente demorei a entender toda aquela situação, mas ainda bem que aconteceu.


Finalmente, nem que seja em uma escala tão pequena, inusitada, e surreal e lúdica, de entender na pele como o meu tom e a minha origem podiam ser usados como ferramenta e lucro para alguns, enquanto, ao mesmo tempo, eu podia ser extremamente insignificante e invisível para outros.



 
 
 

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