Cuidado Com O Que Você Deseja (Xangai)
- Sam Fontes

- há 1 dia
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Eu sonhava em ir pra China desde que me entendo por gente. Cheguei até a me arriscar a fazer um curso de chinês quando fui intercambista nos Estados Unidos. Ao longo dos anos, ouvi falar de várias cidades, mas, por algum motivo que nunca soube explicar, Xangai sempre foi a que mais me atraía.
Então, de repente,no meio dos meus vinte e poucos anos… eu estava lá.
Até então, todas as minhas viagens tinham sido para países ocidentais, então ir pra China parecia entrar em um mundo completamente diferente.
Xangai tinha energia própria. Moderna, descolada. A vibe mudou. Já não era mais só sobre experiências culturais, e sim diversão. Os “descolados” do grupo, Peter e Dallin, já estavam pesquisando baladas e coisas pra fazer à noite. Eu fiquei pensando como eles iam dar um jeito de escapar do nosso professor e ir pra algum clube depois do horário de recolher.
Quando a gente chegou no hotel, que até então era o mais chique em que eu já tinha pisado na vida, eu ainda estava tentando processar tudo aquilo. Todas as minhas viagens tinham sido no modo econômico extremo, e eu só tinha ficado em hotel uma vez, quando minhas malas ficaram presas numa estação de trem na França, num feriado nacional, e eu não tinha onde dormir. A polícia me vendo no banco da praça basicamente me deu duas opções: passar a noite na cadeia ou pagar um hotel. Mas isso fica pra outro texto, haha.
Piso de mármore, tetos extremamente altos, e o maior lustre que eu já tinha visto, compunha aquela entrada grandiosa. O professor começou a sortear os nomes para dividir os quartos, e eu torcia pra ficar com o Andrew. Ele era o único menino com quem eu realmente tinha criado uma conexão até aquele momento.
Mas aí chamaram o nome do Peter.
Eu congelei.
Peter, desde o começo da viagem, tinha se tornado popular com todo mundo, principalmente com as meninas e com os outros “caras legais” do grupo. No dia anterior, no mercado noturno de Pequim, Dallin e ele, tinham feito uma piada infeliz sobre mim na frente de todo mundo.
Eu logo de cara percebi que estes dois não eram apenas populares por serem divertidos, mas se “engraçadinhos.” Faziam piada sobre tudo. Às vezes sobre os outros. E de para alguns, maldosas.
Eu não ouvi exatamente o que foi dito, ou talvez tenha escolhido não ouvir. Mas eu senti. As risadas, o tom de voz. Era a mesma energia que eu sentia de garotos a vida inteira na escola. E de repente, eu me senti sendo aquela versão do adoslecente envergonhado mais uma vez.
Tentei ignorar, mas não dava pra ignorar o constrangimento de estar sendo zoado por algo que eu provavelmente tinha dito ou feito, algo que, de alguma forma, denunciava a minha sexualidade que eu ainda escondia.
No hotel, Peter e eu fomos andando até o quarto. Sem o Dallin, ele ficava mais quieto. Previsível. Garotos assim só estão confiantes quando têm o grupinho perto. Sozinhos, não são tão ousados para serem cruéis com os que fazem bullying.
Entramos no quarto, e a tensão era imediata. Mesmo assim, por mais que eu estivesse incomodado com ele, eu não podia negar que me sentia muito atraído por ele.
Depois de alguns minutos em silêncio, ele perguntou:
“O que você vai fazer mais tarde?”
Eu disse que eu e o Andrew estávamos pensando em ver a vista da cidade e ir ao mercado noturno.
“Daora, cara,” ele disse, naquele tom bem de “bro”. “Vai provar mais comidas nojentas? Haha, você é doido.”
Eu não sabia se aquilo era um elogio ou uma provocação. Eu estava começando a ser conhecido no grupo por topar experimentar todas as comidas estranhas da viagem, e aquele era praticamente o único momento em que os outros caras me “respeitavam” e me viam como um deles.
Desde o começo da viagem, eu me entreguei: doces de matcha, coisas fritas desconhecidas, até o famoso escorpião frito. Quando eu vi uma barraca vendendo perto do palácio em Pequim, corri sem pensar duas vezes, enquanto parte do grupo me chamava de louco.
A sensação de ser diferente era mais forte do que a própria comida. E o conforto de ser reconhecido pelos outros caras me dava o impulso pra continuar tentando aquelas coisas estranhas.
Eu sabia que mercados noturnos eram o lugar certo pra encontrar comida local. Então, pra não passar por outro momento de zoação, eu precisava continuar impressionando todo mundo com esse meu lado “aventureiro”.
Peter disse que ia tomar banho primeiro. Foi aí que caiu a ficha: dividir um quarto significava momentos em que um poderia ver o outro sem roupa. Mesmo nervoso por estar sozinho com ele, eu não podia negar a curiosidade, a atração, e até o desejo de vê-lo nu.
Ele entrou no banheiro totalmente vestido e, quando saiu, estava só de roupa íntima. Não ficou nu na minha frente, mas claramente se sentia confortável só de cueca. Era como se não quisesse mostrar tudo, mas me dar só um gostinho.
Parte de mim achava aquilo irritante, mas outra parte ficava aliviada por ele nunca ter ficado completamente nu. Assim eu evitava o risco de ser pego olhando, e quem sabe o que ele poderia dizer ou fazer. Mas, de um jeito estranho, havia uma energia entre a gente que eu não sabia explicar.
Tomei banho e desci pra encontrar o Andrew no lobby. Ele já estava pronto, com um mapa na mão. Sabia que eu toparia explorar mais a cidade e pegar metrô em vez de Uber, como o resto do grupo.
O tempo todo, Andrew flertava na sua busca por uma namorada chinesa. O objetivo dele naquela viagem era claro pra todos nós: ele estava procurando sua futura esposa. A obsessão dele por garotas chinesas era engraçada, e meio estranha pra todo mundo.
Quando chegamos ao mercado, vimos os outros estudantes jogando seguro: espetinho de frango, frutas, coisas familiares. Pra manter meu status de “o cara que prova tudo” e na esperança de continuar ganhando respeito, e evitar novas zoações, comecei a procurar algo diferente.
Vi carnes bem estranhas no espeto: polvo, pato, até sapos inteiros. Mas ainda queria algo mais único. Algo que eu só pudesse provar ali, na China.
Foi quando o Andrew parou.
Na nossa frente tinha uma fila de garotas jovens, bem vestidas, bonitas. Achei que fosse uma barraca de fruta ou iogurte.
Então olhei pra cima.
“Stinky Tofu” (Tofu Fedido)
Um nome estranho pra algo que atraía uma fila daquelas. Eu nunca tinha ouvido falar, e a combinação da palavra “fedido” com uma fila de garotas bonitas era curiosa o suficiente pra me fazer querer chegar mais perto.
“Bora,” eu disse.
Entramos na fila. Tinha o cheiro de comida frita… e algo mais. Algo estranho. Meio errado.
Tentei entender o que estava sendo preparado. O cozinheiro jogava o tofu no óleo, fritava até escurecer e borbulhar. Colocava num copo, abria um pote grande e despejava um líquido escuro por cima. Coentro. Pronto.
Cada vez que ele abria o pote, o cheiro vinha mais forte.
Forte.
Muito forte.
Quando chegou a minha vez, ele parou. Olhou pra mim.
“Tem certeza?” perguntou, em inglês quebrado.
Eu sorri. “Sim.”
Olhando hoje, não era um sorriso amigável. Era aquele tipo de sorriso que diz: você vai aprender.
Ele me entregou o copo. Andrew começou tirar o celular do bolso para filmar.
Eu não esperei.
Dei uma mordida grande.
No momento em que meus dentes quebraram a casca crocante e atingiram o interior macio, o líquido explodiu na minha boca. Meu cérebro tentava entender a textura enquanto meu nariz conectava o cheiro ao sabor.
Meus olhos se arregalaram.
Por um segundo, parecia que minha vida inteira tinha passado na minha frente.
Foi a pior coisa que eu já provei.
Uma mordida de segundos pareceu durar minutos.
Veio à minha mente um esgotom não um que eu tivesse visto de verdade, mas daqueles de filme. Água escura. Lixo boiando. Um cheiro insuportável.
E, de alguma forma… era aquilo que estava na minha boca.
Meu corpo reagiu de uma vez: ânsia, tosse, tentativa de falar.
Cuspi.
De novo.
E de novo.
Tudo precisava sair.
Se o meu objetivo era encontrar algo inesquecível, eu tinha conseguido. Só não do jeito que eu imaginava.
Andrew estava rindo tanto que não conseguia nem filmar. Mas, no meio daquele gosto horrível, da visão meio turva e do caos mental, eu olhei pro outro lado da rua e vi o resto do grupo assistindo.
Peter e Dallin vieram até mim. De alguma forma, eles já conheciam aquela comida. Me parabenizaram pela coragem, por ter comido algo tão nojento. Ganhei dois tapinhas nas costas. E alguns apertos de mão. E nenhuma piada.
Por mais ingênuo que eu fosse na época, eu entendi: eles não estavam impressionados o suficiente pra serem meus amigos, mas o suficiente pra perceber que eu podia ser alguém divertido de ter por perto. O que, mais tarde naquela mesma noite, acabaria levando a um convite pra uma noite bem estranha (que eu conto na Parte 2 de Xangai).
Mas antes, eu precisava tirar aquele gosto da boca com um espetinho de frango e uma tigela de frutas. Porque nada supera enfrentar o estranho e o traumático com o familiar.
Naquele momento, não era só sobre o gosto. Era sobre alívio, sobre deixar de ser a piada, de não estar sendo observado, de não precisar provar nada.Porque provar aquele tofu nunca foi realmente sobre ser aventureiro.Era sobre ser aceito.
Ser aceito por pessoas que, no futuro, não trariam nada de importante para a minha vida. Mas o desejo de me livrar das piadas era maior do que a ânsia de fugir do trauma da comida.
No final das contas, nunca foi sobre o alimento, e sim sobre performar o que eu não era, nem que fosse por um instante, só para ser aceito.
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